Adele e a música para os ouvidos

“Não faço música para os olhos, faço música para os ouvidos”
Foi a declaração de Adele a edição norte-americana da revista Rolling Stone. A essa altura acredito que todos já conheçam a cantora inglesa, ou pelo menos ouviram falar, devido ao enorme sucesso do álbum 21, lançado no início deste ano e que alcançou impressionante número de vendas de suas cópias físicas, digitais e singles. O que é tão impressionante em Adele? difícil definir. Quando ouvimos 21, começamos com a impressão de que se trata de um bom álbum de interessante música pop com uma pegada soul vindo de uma cantora de voz potente. Como algumas outras que surgiram pós-Winehouse e logo sumiram da mídia . Passadas as duas primeiras músicas, se inicia uma sessão de baladas um pouco longas, tendo o piano como base e vocais grandiosos, inclusive coros um tanto bregas que nas versões ao vivo foram acertadamente retirados. Ficamos com a sensação de já termos escutado isso antes e é possível até que alguns se entediem ao longo da audição, mesmo sendo despertos pela pop-dramática “Set fire to the rain”, produzida sob medida para virar um grande hit, e o último momento animado do disco fica com “I’ll be waiting”. A pergunta fica no ar.

Particularmente, gosto de Adele. Acho seu primeiro CD, 19, muito mais sincero e original que o sucessor. Na época, Adele estava ainda saindo da adolescência e já demonstrava enorme talento como cantora e compositora. A estética era simples: Adele, vestida com roupas que tratavam de esconder seu corpo, pouca maquiagem, e um violão. Um imenso contraste com o que vemos hoje: mesmo que continue com suas letras confessionais, surge em 21 uma estética muito bem pensada para emplacar algum sucesso: músicas produzidas com cara de hits, uma arte classuda, uma cantora que agora usa cílios e unhas postiças, um penteado moderno e roupas que valorizam seu corpo, embora continuem na confortável cor preta, a que dizem ser obrigatória para todos os que estão acima do peso. Adele chegou mostrando que havia crescido e estava de volta disposta a entrar nas paradas de sucesso. O que ninguém imaginava é que ela assumiria, em tão pouco tempo, o posto assumido por Amy Winehouse como a grande “revelação” da música pop, capaz de agradar crítica e público, jovens e adultos, ao ponto de ser considerada uma diva da música para alguns. E tanto respeito se deve ao fato de Adele não ser a estrela pop convencional: sem danças ou bailarinos – inclusive ela se apresenta sentada em parte do seu show, sem grandes figurinos ou pirotecnia, sem letras ou atitudes polêmicas. Ainda que Adele fique no terreno comum das canções de amor e separação que mesmo taxado de brega todos somos capazes de nos identificar, a música dela funciona como um delicado momento de refúgio para aqueles consumidores de música pop que já cansaram de tanto sexo, polêmica e bizarrice. Um pouco de sentimento que soa muito mais sincero quando a vemos cantando em público. Adele também conquistou o público pelo seu carisma. Sempre à vontade, ela comenta quase todas as músicas em seus shows, faz piadas, se emociona com suas canções. Adele se mostra uma cantora consciente de que o que tem a oferecer ao público é a sua música, não algum padrão de beleza imposto ou de comportamento previamente ensaiado. É uma das raras vezes em que vemos uma artista gordinha se tornar um enorme sucesso de público, estar nas revistas que nunca deram capa para uma mulher de medidas plus size. Ainda lemos comentários preconceituosos, que julgam o talento de Adele pela aparência, em frases como “apesar de ser gordinha”. Mais do que mais uma cantora de baladas amorosas, Adele provou ser também uma artiista verdadeira e uma inspiração para todas aquelas mulheres que não se encaixam no padrão das capas de revista e se sentem bem com isso.
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