Devaneio Marxista de verão

A convivência perturbadora e ilusoriamente pacífica entre opressor e oprimido. Tal é a minha impressão imediata da criança dormente aos braços da estátua. Aquela, envolta na ilusão confortadora do abraço impessoal e momentâneo; esta, em sua maternidade pétrea e figurativa, insensível a um provável sonho libertário. Matéria-prima possível pela exploração de braços operários e forjada pelo enlevo artístico burguês, a estátua sustenta exatamente aquilo sem o qual não teria sido possível erguer-se e que não lhe cabe dar um alento maior do que um momentâneo descanso na frieza dos seus braços de pedra. Visto assim, o repouso tímido da criança contém em si toda uma práxis revolucionária, uma crítica velada das contradições do capital. Verdadeiro monumento dialético, a serenidade do cenário deixa transparecer, contudo, um fervilhante debate de opostos. A estátua e a criança. O Burguês e o operário. A inconsciência e o sonho. A tese e a antítese. Dorme, pequena suja, dorme. Dorme como dormem aqueles que te oprimem, alheios ao colapso que se avizinha. E o teu despertar haverá de ser o prenúncio do levante dos oprimidos para a construção de um socialismo fraterno e de um mundo de irmandade solidária. Inebriado por este sonho possível detenho-me por uma última vez na imagem da criança em seu insólito berço e na penumbra da tarde que se esvai quase posso ver a estátua beijar-lhe a fronte enegrecida de carvão.

 

@ZKOliva

 


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  • alexandre lambert

    Gostei muito da foto e do texto. Gostaria de saber quem foi o fotógrafo e onde foi tirada, quando? E quem é ZKOLIVA? A ele parabéns por tudo, pela foto postada e pelo texto. Repassei a foto e o texto, e os meus amigos estão todos curiosos. Será possível passar esse informe para o meu e-mail?
    Agradeço desde já!
    Alexandre Lambert

    • Zeca Oliveira

      Desconheço o autor da foto. Cruzei com esta foto genial por acaso na internet e não consegui descobrir a fonte. Acabei inspirado pela imagem. Eu sou geólogo, professor da UNISINOS e colaborador do Teia Livre. Fico envaidecido pelos seus comentários Alexandre. Um grande abraço.

  • Marco Biruel

    Cacilda meu irmão, larga a geologia e vai ser escritor rsrs Muito bom Zeca, uma imagem, às vezes, fala por mil palavras… em outras vezes mil palavras são necessárias para refletir o que a sombra da imagem esconde… eu to viajando na imagem… e no texto… perfect! 

    • Zeca Oliveira

      Pôxa Biru, valeu meu velho. Fiquei todo besta aqui…..

      Forte abraço amigo.

  • Ilana Lehn

    É isso, quando mais pessoas perceberem o mundo ao redor, e as surpresas que ele apresenta, como essa imagem, muito estará resolvido; precisamos saber que para tudo existe uma explicação e assim, consequentemente, uma solução.
    Eu acredito na sensibilidade, penso que só assim sairemos de um buraco sem expectativas e vislumbraremos o mundo com todas suas possibilidades e isso inclui a sociedade nesse mundo.
    Bela reflexão, Zeca. A percepção é o início da revolução!