O que é necessário para superar a crise global: algumas ideias da América do Sul

Texto da apresentação do autor no Fórum Público Mundial Diálogo de Civilizações, em Rodes, Grécia, 10 de outubro de 2010.

Quero começar com uma pergunta, que parece óbvia: o que é que, em
realidade, está em crise? É apenas uma crise econômica, apenas uma crise
do sistema financeiro e econômico hegemônico, ou é uma crise algo mais
profunda, que se também reflete na derrocada econômica?

Poderíamos pensar que se trata de mais uma da série de crises cíclicas
características do sistema financeiro capitalista, porque as receitas e
soluções conhecidas não estão funcionando e estivemos a ponto de um
derretimento total do sistema financeiro, com a crise do Lehman
Brothers, em 2008. Mas, aqui, surge a indagação sobre por que chegamos a
esse ponto de desintegração, se os grupos dominantes do sistema
financeiro e monetário mundial se consideram tão inteligentes,
especializados e poderosos. A única explicação é que a perversão deles
foi superior à sua inteligência. Criaram mecanismos especulativos
superiores à sua capacidade de controle e, por causa disto, o seu
sistema está vindo ladeira abaixo.

Começaram com a ruptura dos acordos de Bretton Woods, em agosto de 1971,
no governo do presidente Richard Nixon, e lançaram um processo de
desregulamentação do sistema financeiro internacional, que ficou cada
vez mais divorciado dos setores produtivos da economia, com uma sucessão
de bolhas financeiras ? petrodólares, dívida externa, junk bonds,
hipotecas imobiliárias no Japão, Internet, hipotecas imobiliárias nos
EUA (as chamadas subprime), concluindo com a ?mãe de todas as bolhas
financeiras?, a dos derivativos. Em 1980, a massa de instrumentos
monetários e financeiros era aproximadamente equivalente ao PIB mundial
de 9 bilhões de dólares; em 2005, a proporção ativos financeiros/PIB já
havia subido para cerca de 3 para 1, sem considerar os derivativos.
Hoje, menos de 5% das transações monetárias mundiais estão relacionadas
ao comércio internacional de bens e serviços ligados à economia real. O
BIS estima o montante atual de derivativos na casa do quatrilhão de
dólares, contra um PIB global que pouco ultrapassa os 60 trilhões de
dólares.

Pois esses grupos oligárquicos se acreditavam ser tão poderosos que
tentaram mudar as leis universais ao seu talante. Inventaram e impuseram
modismos financeiros como os derivativos, da mesma maneira como os
meios de comunicação ao seu serviço se empenham em definir formas de
comportamento antinaturais, como casamentos ?derivativos? entre
indivíduos do mesmo sexo ? instrumentos muito criativos, mas inférteis.

E isso resulta da peculiar concepção do homem que serve de base ao
sistema econômico hegemônico prevalecente. Para eles, o homem é apenas
um consumista, um agente de consumo inserido em uma economia de mercado.
O homem não é um cidadão, não é um membro de uma nação, é considerado
simplesmente um objeto do mercado. E isto tem profundas implicações,
porque a sociedade se organiza em torno de uma concepção do homem. Na
era da globalização, o que vemos é o incentivo do homem para a cobiça, a
luxúria, o egoísmo e o hedonismo, que são os caminhos para induzir o
homem ao consumo. Não se trata do consumo necessário à existência digna
do ser humano, mas um consumo que sustenta um sistema econômico e
financeiro parasitário e predatório. Assim, colocou-se o consumo como o
objetivo central do homem.

Estamos diante de um esforço para substituir um sistema de valores
transcendentes pela simples necessidade de ser alguém pelo seu padrão de
consumo. Já não se trata do indivíduo como membro de uma sociedade
nacional, cujo valor é a sua contribuição ou sua missão para o
aprimoramento da sua sociedade ou o engrandecimento de sua pátria, mas
apenas um animal consumista. A relação do homem com a natureza se
transformou apenas em uma relação de consumo. De fato, a globalização
nos propõe uma sociedade desenraizada do princípio do Bem Comum e da
justiça. Por isso, vale recordar Santo Agostinho, que, na sua célebre
obra A Cidade de Deus, escrita no século IV da nossa era, perguntava:
?Se de um governo retiramos a justiça, o que sobra, senão um bando de
ladrões??


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  • Jorge

    Interessante…