A bola dá razão ao Barça

Quando aos 40 minutos do segundo tempo, Messi arrancou pelo meio da zaga do Real Madrid e, de perna direita, empurrou para o gol, quase o mundo todo sorriu.

De cara amarrada, apenas os Madridistas, alguns pachecos brasileiros que não comemoram nada que seja argentino e o senhor José Mourinho.

Além de praticamente colocar o Barcelona na final da UEFA Champions League, provavelmente contra o Manchester United, o golaço de Leonel coroou a vitória do futebol ofensivo, alegre, que se diverte, sobre a retranca, a pancada, os volantes e o endeusamento de técnicos.

José Mourinho é o último exemplo desse endeusamento exacerbado.

Bem apessoado, poliglota e, sem dúvida, competente e vitorioso, o português é, por vezes, alçado ao posto de mestre supremo da tática e principal responsável pelas vitórias dos times que dirige.

Tal endeusamento acontece também com outros técnicos, sendo os exemplos mais próximos os nossos Muricy Ramalho, Felipãoe tantos outros professores.

Técnicos são relevantes, claro, como todos os líderes de equipes, dentro e fora do esporte. Um líder fraco quase sempre produz um grupo fraco e incapaz de alcançar seus objetivos, da mesma forma que um líder competente e forte é um bom ponto de partida para o sucesso do grupo.

No futebol, porém, há tempos exagera-se a importância dos técnicos.

O gol de Messi é mais uma prova de que quem ganha jogo é jogador. Sem time, não há mágico que dê jeito.

Mourinho, por exemplo, sabe disso e sempre se cerca de grandes times em grandes clubes. Ele sabe, mesmo que não diga, que sem peças é impossível montar um time forte.

Como desafiou um piadista no Twitter: “Quero ver o Mourinho ser campeão com o atual elenco do Botafogo. Com o Real Madrid é mole.”

O segundo significado da vitória do Barcelona hoje é ainda mais relevante.

Outro dia, em um programa de TV, o galinho Zico, maior jogador brasileiro depois de Pelé, lembrou como a derrota da seleção de 1982 fez mal ao futebol como todo.

A partir da derrota daquela seleção de sonhos, criou-se a falsa divisão entre futebol bonito e futebol vencedor.

A própria seleção brasileira sofreu, e ainda sofre, com isso.

Na última Copa do Mundo, o ex-volante Dunga (representante dedicado do futebol eficiente) deixou de levar Paulo Henrique Ganso e Neymar para ter no grupo jogadores como Felipe Mello e Julio Baptista.

Voltando ao gol de Messi, o Barcelona é, pelo menos por toda a última década, o grande representante do futebol bonito, de bola no pé, de toque em toque, até o gol.

Desde Romário, passando por Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e agora Messi, o time catalão sempre teve um super-craque auxiliado por um time de estilistas. Esse Barcelona dos últimos anos provou que é bem possível ganhar jogando bonito, sem violência e dando show.

Ano passado, na semifinal da mesma Champions, José Mourinho conseguiu bater o Barça com a Inter de Milão, que viria a ser campeã. Para isso, fez exatamente o oposto do que fez nessa quarta, em Madrid.

No primeiro jogo, em Milão, depois de tomar um gol, foi para cima do Barça e venceu por 3 a 1.

Na volta, no Camp Nou, após ter um jogador expulso, montou os famosos “muros do Mourinho”, as duas linhas de quatro jogadores que impediram que Messi e cia marcassem o terceiro gol que levaria o jogo para os penaltis.

Como a última imagem é a que fica, todos esqueceram da bela atuação da Inter em Milão e passaram a exaltar a retranca de Mourinho na Espanha.

Agora, um ano depois, parece que o próprio técnico acreditou que a retranca era o caminho para vencer o Barcelona.

Nos primeiros três dos quatro jogos em sequência entre Real e Barça, Mourinho esqueceu o grande time que tem nas mãos e resolveu montar uma retranca que deixaria Joel Santana orgulhoso.

Ver o Real Madrid com Cristiano Ronaldo, Ozil, Marcelo, Xavi Alonso, sem falar em Kaká no banco, e outras feras apenas marcando sem tentar equilibrar o jogo tem sido triste.

O empate no primeiro jogo e a vitória na final da Copa do Rei (com um gol de cabeça de Ronaldo bem ao estilo do botafoguense Loco Abreu) deram a idéia de que mais uma vez o futebol pragmático prevaleceria sobre o futebol arte.

E o pior é que a crônica esportiva acreditou nisso e apoiou, dando vivas ao gênio de Mourinho, que teria encontrado um outro meio de se jogar futebol e vencer.

O violento, desleal e por vezes criminoso volante Pepe virou o símbolo desse Real Madrid covarde e retrancado que, mesmo em casa, teve menos de 30% de posse de bola no jogo de hoje.

O comentarista da ESPN Brasil Mauro Cezar Pereira, logo após o 0 x 0 pelo campeonato espanhol, duas semanas atrás, disse que Pepe tinha o “espírito certo para o clássico”.

Hoje foi justamente Pepe que desequilibrou o jogo. Ao dar uma entrada violentíssima em Daniel Alves, uma rotina em sua carreira, foi mais uma vez expulso e deixou seu time na mão.

Com um a menos e sem saber jogar de outra forma, o Real virou presa fácil para o Barça.

Foi quando Messi fez o primeiro e depois o segundo, que abriu o sorriso em muitas caras ao redor do mundo.

Quantas vezes mais um craque vai ter que escrever com os pés a lição que os “idiotas da objetividade” (assim apelidados por Nelson Rodrigues) insistem em não aprender?

No futebol, o caminho mais curto para a vitória é o talento.


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