Não é hipocrisia, é civilidade, seu Rica

Em texto publicado em seu site, o jornalista Rica Perrone achou um absurdo hipócrita a punição que a Liga de Vôlei aplicou ao Cruzeiro depois que a sua torcida xingou o atleta Michael de bicha e viado em jogo entre as duas equipes.

Para Rica, trata-se de um exagero politicamente correto.

Ele argumenta que xingamentos são normais no mundo do esporte e que não podem ser tipificados como expressões de preconceito.

Para reforçar seu argumento, Rica usa a imagem das mães dos juízes de futebol, xingadas de “putas” por tocidas em todo o Brasil.

Será que é a mesma coisa?

Acho que não. Xingar a mãe do juiz é uma figura de linguagem, uma expressão quase folclórica do descontentamento do torcedor com aquele que os fãs acham que prejudicou seu time.

Outra diferença: Você conhece alguma senhora que foi atacada na rua apenas por ser mãe de um árbitro de futebol?

Pois bem. Gays, lésbicas, travestis e transexuais são agredidos e assassinados diariamente no Brasil apenas por serem quem são.

Rica faz também a diferenciação entre ser gay e ser viado, ou bicha. Para Rica, ser viado (o que ele parece classificar como o gay exibido, escandaloso) é uma escolha e, por isso, está sujeito à oposição e à recriminação social.

Rica defende o direito de “andar do outro lado da calçada”, de não gostar, de dizer que não gosta.

Como era esperado, o texto foi aclamado no Twitter. Muitos dos apoiadores usavam a Hashtag #orgulhohetero.

Ninguém é obrigado a gostar da orientação sexual de ninguém, mas é preciso muito cuidado quando se externa esse desgosto.

A distância entre “andar do outro lado da calçada” e bater na cabeça daquela bicha nojenta com uma lâmpada fluorecente é muito pequena, como temos visto no dia a dia de nossas cidades cada vez mais violento.

Quando uma torcida formada por homens, mulheres e crianças, muitos deles pais e mães acompanhados de seus filhos e filhas, xinga um atleta de viado e bicha exatamente porque esse atleta é homossexual assumido, está mais uma vez perpetuando a noção preconceituosa de que ser homossexual é algo ruim, digno de vergonha e que pode ser usado como agressão a alguém.

RIca se coloca como exemplo e se orgulha de ter vários amigos negros, a quem chama “carinhosamente” de Negão, sem que estes se incomodem com isso.

Rica parece não perceber que o preconceito está ai mesmo. Na nomalidade que existe em se chamar alguém de negão, pretinha, tiziu, crioulo, viadinho, bichina, sapatão, etc.

Infelizmente no Brasil as minorias não conquistaram ainda o direito de determinar quais são as expressões que são ofensivas e as que não são.

Nos EUA, chamar alguém de “Nigger” é motivo quase sempre para briga ou processo por racismo.

Rica fecha seu texto com o conhecido argumento de quem se sente incomodado com a luta das minorias por seu lugar de direito na sociedade.

Ele diz que os homossexuais querem tratamento vip, querem ter regalias e mais direitos do que os demais membros da sociedade.

Rica é paulista, branco, de classe média, homem e bem instruído, ou seja, não deve ter sofrido muito com preconceito durante sua vida.

Ele provavelmente nunca teve que quase se despir sempre que quis entrar em uma agência bancária ou foi seguido por seguranças sempre que entrou em uma loja.

Ele provavelmente nunca passou pela situação de saber que era mais qualificado para um emprego, mas perdeu a vaga para um homem apenas por ser mulher.

Ele não precisou passar a vida escondendo que sente atração por pessoas do mesmo sexo que ele.

Ele provavelmente nunca teve medo de ser agredido por andar de mãos dadas ou dar um beijo em público.

Se tivesse passado por uma ou mais de uma dessas situações, Rica talvez tivesse uma opinião diferente sobre a tal hipocrisia.

Ele saberia que o racismo, o machismo, a homofobia e todos os tipos de preconceitos se expressam nas menores coisas da vida, naqueles detalhes sem importância que se não combatidos com veemência, explodem em ações criminosas.

O discurso politicamente correto pode parecer exagerado, mas é um exagero que protege um bem maior, como uma vez escreveu o genial Luis Fernando Veríssimo sobre o assédio sexual às mulheres nos EUA.

“A verdadeira questão para as mulheres americanas é que o homem pode recorrer a tudo na sociedade – desde a moral dominante até as estruturas corporativas de poder – para seduzi-las, que toda essa civilização é um álibi montado para o estupro, e que elas só contam com um ‘não’ desacreditado para se defender.”

Por isso, Rica, não é tratamento especial. É civilidade e o direito do ofendido a determinar o que o ofende. Essa prerrogativa não pode ser de quem ofende.

E como nota final de um texto que prega a separação o tempo todo, Rica encarna Bolsonaro, ao dizer que nunca discriminou gays, nunca agrediu gays, mas que não quer ter um filho gay.

Prezo, Rica, que se isso vier a acontecer, você supere a sua mentalidade atual e aprenda a amá-lo como ele é.


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